sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Uma morte em vida

"Dez, nove, oito, sete, seis, cinco. Horas para frente, vidas para trás. Os dias são uma esteira de repetição consentida. Uma morte em vida. As palavras ecoam sem parar no corpo vazio. Todos moram na sua Torre de Babel particular. A única flor que nasce no coração dos homens provém do cacto, o deserto é a única edificação da paisagem humana.
Todos tem a feição de suas sombras.
Os homens evoluem olhando para o chão. Todas as noites, rios e rios de lágrimas escorrem secretamente. Quatro, três, dois, um. Dormir para esquecer e simular o conforto da morte. Grito de horror no sono profundo. A alma confinada na sua estatura mediana de vida. Triste espetáculo de monólogo sem público, ninguém ouve, ninguém fala, ninguém sente. Diminuir a luz em volta da cama, apagar o último cigarro do maço e sofrer por antecipação os primeiros raios de sol. Desenha no teto mentalmente alguém que nunca vai conhecer enquanto seus olhos se fecham lentamente. Zero. Cai o pano."


(Nick Farewell)

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